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  • Ana Gabriela Hounie

Maconha além das paixões: compaixão e ciência

Ao lado, o artigo que saiu no Globo em 25/10/2023, nosso presente Natalino.

Abaixo, o artigo na íntegra, que para o Jornal teve que ser reduzido para caber na coluna.

Espero que gostem!

Quem gosta de futebol, e a analogia em época de Copa do Mundo não é mera coincidência, sabe que as paixões a

cometem a todos os humanos, há fanáticos por todos os times. Deixemo-las de lado, exceto a que temos pela saúde dos pacientes refratários aos tratamentos tradicionais, e passemos a uma visão fria e científica dos fatos. A taxa de refratariedade em neuropsiquiatria é altíssima: 30% dos deprimidos, 15% dos esquizofrênicos, 90 % dos demenciados, 40% dos obsessivos e 30% dos epilépticos, apenas para exemplificar. Diversos trabalhos demonstram que esses pacientes respondem aos canabinoides. Assombrosamente, os derivados da Cannabis também podem combater o abuso de drogas, como os opioides (que causam 50 mil óbitos por ano nos EUA), os benzodiazepínicos, os indutores de sono (dependência de droga Z, uma epidemia atual) e o álcool. Por que negar o direito ao uso compassivo destes produtos a essas famílias que tanto sofrem?

Uso compassivo é o uso por compaixão, quando se esgotam as possibilidades terapêuticas, e ao colocar na balança, de um lado o sofrimento atual do paciente e do outro a possibilidade de alívio com um mínimo de possibilidade de efeitos adversos, a decisão é pelo alívio e a melhora da qualidade de vida.

Diversos trabalhos epidemiológicos demonstraram a segurança do uso medicinal dos derivados da Cannabis por pelo menos 5 anos de uso. Este período é mais que suficiente para contemplar a prescrição para o uso compassivo. Uma coorte de pacientes australianos, que envolveu cerca de quatro mil indivíduos, concluiu que essa terapia é segura e bem tolerada (https://doi.org/10.1371/journal.pone.0272241). Por outro lado, sabe-se que a prescrição de algumas classes terapêuticas tradicionais está associada a aumento da mortalidade entre idosos. O exemplo mais claro é o uso de neurolépticos para tratamento de agitação nos pacientes com demência, associado ao aumento de 3 a 5 vezes do risco de morte por quedas, infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral. Como contraponto, não existe um estudo sequer, ou mesmo relato de caso, de overdose de Cannabis ou quaisquer evidências de aumento de mortalidade. Um grupo do Kings College publicou no periódico Plos Medicine uma meta-análise que avaliou os resultados de estudos clínicos com mais de 3600 pacientes. Apesar da possibilidade de efeitos adversos, não houve evidência de aumento de mortalidade, seja com canabinoides naturais ou sintéticos – como o dronabinol - aprovado em 1985 pelo FDA para o tratamento das náuseas, vômitos e a caquexia associadas ao câncer. A era do conhecimento médico dos derivados da Cannabis está em franca expansão. Há diversos relatos de casos de doenças refratárias, intratáveis ou incuráveis que se beneficiam do uso compassivo: paralisia supranuclear progressiva, demências, TOC, epidermólise bolhosa, psoríase, síndrome de Tourette, várias doenças neurodegenerativas como Parkinson, Huntington, ELA, dores crônicas (fibromialgia, enxaqueca, neuralgias), entre outras. Fechar os olhos para essas indicações emergentes, ou pior, simplesmente negá-las, é uma afronta aos mais basilares princípios hipocráticos.

Contrariando a afirmação de que não há lugar para o uso da Cannabis na psiquiatria, o Estado de Israel, via Ministério da Saúde, regulou o uso da Cannabis na síndrome de Tourette, no transtorno de estresse pós-traumático, no autismo e nos sintomas comportamentais das demências. A APA (Associação Americana de Psiquiatria) promove um curso sobre o uso medicinal de Cannabis (https://education.psychiatry.org/diweb/catalog/item/id/9238482), se não para estimular, pelo menos para reconhecer que o uso existe, e preparar os médicos para receber esses pacientes, reconhecer sua demanda e encaminhar para os que possuem a expertise de acompanhá-los.

Para finalizar, cabe aqui um pensamento de Albert Sabin: “O cientista, que também é um ser humano, não deve descansar enquanto o conhecimento que pode reduzir o sofrimento repousa em uma estante”. É justamente aqui que a compaixão encontra a ciência e vice-versa.


Ana Gabriela Hounie, psiquiatra com Doutorado e pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, membro do conselho consultivo da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide e Presidente da Ambcann.

Flávio Henrique de Rezende Costa. Mestre e Doutor em Neurologia pela UFRJ. Professor Adjunto de Neurologia da Faculdade de Medicina da UFRJ. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Membro do conselho consultivo da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide e diretor científico da Ambcann.



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